Dekassegui 40 anos depois ainda enfrenta barreiras linguísticas e trabalho em fábricas, repetindo desafios dos pioneiros.
Comunidade dekassegui completa décadas sem grandes transformações
A história do movimento dekassegui começou no final dos anos 1980.
Naquele período, o Japão enfrentava escassez de mão de obra.
Ao mesmo tempo, o Brasil atravessava dificuldades econômicas.
Como resultado, milhares de descendentes de japoneses receberam a oportunidade de trabalhar no arquipélago.
O objetivo inicial era simples.
Muitos pretendiam permanecer apenas alguns anos.
Entretanto, o fenômeno transformou-se em um dos maiores movimentos migratórios da história da comunidade nipo-brasileira.
Passados aproximadamente 40 anos, uma questão chama atenção.
Os descendentes que chegam atualmente ao Japão apresentam características muito semelhantes às dos pioneiros.
Os primeiros dekasseguis enfrentaram grandes dificuldades
Os primeiros trabalhadores eram, em sua maioria, filhos de japoneses.
Muitos possuíam pouca ou nenhuma fluência no idioma japonês.
Além disso, grande parte desconhecia costumes e regras da sociedade japonesa.
O destino mais comum eram as fábricas.
Os empregos concentravam-se principalmente nos setores automotivo, eletrônico e metalúrgico.
Consequentemente, o trabalho físico tornou-se a principal porta de entrada para os brasileiros.
Apesar das dificuldades, muitos conseguiram melhorar a situação financeira das famílias.
A nova geração chegou ao Japão
Hoje, o perfil mudou parcialmente.
A maioria dos recém-chegados é formada por netos e bisnetos de japoneses.
Em teoria, seria esperado um avanço significativo.
Afinal, passaram-se mais de quatro décadas desde o início do ciclo migratório.
No entanto, a realidade surpreende muitos observadores.
Grande parte dos jovens continua chegando ao Japão sem domínio adequado do idioma.
Além disso, o destino profissional permanece praticamente o mesmo.
As fábricas continuam absorvendo a maioria dos trabalhadores brasileiros.
O idioma continua sendo uma barreira
Um dos aspectos mais debatidos envolve a língua japonesa.
Os pioneiros enfrentaram dificuldades linguísticas nos anos 1980.
Curiosamente, muitos descendentes atuais enfrentam problema semelhante.
Embora existam cursos, aplicativos e acesso facilitado à informação, a fluência ainda não é uma realidade para grande parte dos recém-chegados.
Como resultado, as oportunidades profissionais permanecem limitadas.
Muitos acabam aceitando vagas que exigem pouca comunicação em japonês.
Por que houve poucos avanços?
A resposta envolve diversos fatores.
Primeiramente, muitos descendentes cresceram longe da cultura japonesa.
Além disso, o idioma deixou de ser transmitido em inúmeras famílias ao longo das gerações.
Outro fator importante é o próprio mercado de trabalho.
As fábricas continuam oferecendo salários atrativos para quem chega ao país.
Consequentemente, a necessidade imediata de qualificação acaba sendo reduzida.
Para muitos trabalhadores, a prioridade continua sendo a estabilidade financeira.
O ciclo parece se repetir
O cenário atual apresenta semelhanças evidentes com o passado.
Nos anos 1980:
- Pouco domínio do japonês;
- Trabalho em fábricas;
- Adaptação cultural difícil;
- Objetivos financeiros imediatos.
Em 2026:
- Pouco domínio do japonês;
- Trabalho em fábricas;
- Adaptação cultural difícil;
- Objetivos financeiros imediatos.
Essa repetição desperta reflexões importantes.
Houve avanços que nem sempre aparecem nas estatísticas
Apesar das semelhanças, algumas mudanças ocorreram.
A comunidade brasileira possui hoje:
- Escolas bilíngues;
- Veículos de comunicação próprios;
- Redes sociais comunitárias;
- Empresas administradas por brasileiros;
- Serviços especializados para imigrantes.
Além disso, existe maior acesso à informação.
Os pioneiros chegaram praticamente sem orientação.
Os novos trabalhadores encontram uma estrutura muito mais desenvolvida.
O desafio da mobilidade social
Especialistas apontam que o principal debate talvez não seja a presença em fábricas.
O ponto central envolve a mobilidade social.
Após décadas de imigração, muitos esperavam encontrar um número maior de descendentes ocupando cargos técnicos, administrativos e gerenciais.
No entanto, essa transição ocorreu de forma mais lenta do que o esperado.
Consequentemente, o tema continua gerando discussões dentro da comunidade.
O futuro da comunidade dekassegui
O movimento dekassegui atravessa uma nova fase.
A imigração já não é composta pelos filhos dos imigrantes japoneses.
Agora, são netos e bisnetos que seguem o mesmo caminho.
Em conclusão, a permanência de desafios semelhantes aos enfrentados pelos pioneiros revela uma questão importante.
O Japão mudou.
O Brasil mudou.
A tecnologia mudou.
Entretanto, uma parcela significativa dos descendentes continua chegando ao arquipélago com limitações linguísticas semelhantes e ingressando nos mesmos setores produtivos de quatro décadas atrás.
A reflexão que surge não é apenas econômica.
Ela envolve educação, preservação cultural, transmissão do idioma e a capacidade da comunidade nipo-brasileira de construir novas oportunidades para as futuras gerações.

Roger Tokunaga é um jornalista investigativo com mais de 15 anos de experiência, graduado pela USP e pós-graduado em Relações Internacionais pela FGV. Atuou como correspondente na Ásia pela Reuters e, atualmente, é editor-chefe de macroeconomia no portal Japan Review. Sua carreira é marcada pela cobertura de geopolítica, economia internacional e bastidores políticos.
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